Os livros esperam e os leitores chegam…

Memórias de uma sensibilizadora de leitores no Varjão – DF

por Cida Maria Bomtempo

Decidi levar o Bibliorodas para o Varjão, bairro na periferia de Brasília em abril de 2016. Lá iniciei uma expedição  literária . Escolhi explorar a pracinha central daquela cidade. Levei os livros no carrinho , mas optei por distribuir o acervo para melhor visualização do leitor em uma mesinha da própria praça.

A primeira expedição foi árida, parecia que não ia fluir. Pessoas desconfiadas passavam longe dos livros. Os livros espalhados sobre a mesa, esperavam pacientemente a vinda dos leitores.

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Lançava o convite para os transeuntes: “Aceita um livro?”.

“Quero não, dona, obrigada.” vinha-me como resposta. Alguns passavam e logo perguntavam “Dona, é pra vender?”

Não sabiam do que se tratava. Embora  eu contasse toda a história do projeto, nada acontecera para aqueles curiosos  nas minhas primeiras idas ao Varjão.

Eu decidi persistir. Aprendi a paciência dos livros e coloquei-me a esperar os leitores.

Até que um dia,  um rapaz de sotaque francês aproximou-se  e me disse que havia chegado do Haiti e procurava  emprego. Precisava de um dicionário  Francês/Português para ajudá-lo a entender a nossa língua e facilitar sua comunicação. Pensei que poderia tentar ajudar aquele rapaz e fui em busca do tal dicionário. Foi no Cebinho da Asa Norte que consegui um dicionário para o rapaz.  Na quinzena seguinte, eu estava de volta à praça com o dicionário à disposição.

O rapaz também voltou à praça e ficou extremamente feliz ao ter em suas mãos o livro desejado. Para ele, ter o tal dicionário em suas mãos,  parecia algo inacreditável, quase um milagre mesmo… Tão comovido ficou o rapaz com a aparição do dicionário que, dessa vez, pediu para eu encontrar uma namorada para ele… Esse desejo, o Bibliorodas não realizou. Torço para que  o tal rapaz, agora com seu dicionário em mãos, consiga realizar seus sonhos…um emprego, uma namorada. A leitura abre tantas portas!

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Praça do Varjão – DF

Outro dia, uma senhora saindo da igreja com suas netas manifestou-se curiosa por aqueles livros sobre a mesa. Foram chegando sorrateiramente e eu as recebi oferecendo os livros.  Foi um encontro maravilhoso! Ouvi histórias incríveis contadas por aquela senhora e descobri que aquelas meninas eram leitoras! Embora a vó não soubesse ler, ela estimulava suas netas a gostar de livros. Pude ver seus olhos brilharem quando viram tantos livros. A menina menor, com seus 9 anos, escolheu um livro e disse:”Já sei, na próxima vez, vou levar esse outro.” Então, perguntei se ela gostaria de levar os dois. Ela se surpreendeu com a possibilidade. Levou os dois. Sua irmã também escolheu um livro e saíram saltitantes  com a novidade. A partir desse dia, elas passam quinzenalmente na pracinha para deixar os livros lidos e pegarem outros. São minhas leitoras assíduas. E eu sempre as espero, escolho alguns livros para a expedição pensando nelas…

Certa vez, apareceu uma leitora voraz. Embora já tivesse lido muitos livros que estavam disponíveis no nosso cardápio, ela sempre encontra novidade.  Procurei saber de seus interesses e, nas expedições seguintes, pude atender ao seu  gosto literário. O trabalho de indicar livros me provoca a tentar entender a sensibilidade do outro, é um aprendizado muito rico.

Outra leitora assídua é uma mãe que sempre pega um livro para ler para seu filho que tem apenas 6 anos. ela pega o livro, mas quem escolhe é ele. Ele manifesta sua autonomia e identidade ao argumentar a espeito das histórias que quer conhecer.

A relação que cada leitor estabelece com os livros é sempre uma experiência singular permeada pelo descobrimento do gosto, da identidade, das escolhas, uma verdadeira vivência de liberdade.

Nesse pouco mais de um ano, observo que sempre aparecem leitores novos que me  surpreendem, sobretudo as leitoras… E essa aproximação dos leitores é o  principal estímulo para a continuidade de minhas expedições literárias naquela pracinha.

Contabilizando os livros que foram emprestados, fiquei surpresa ao perceber hoje que já circulamos 100 livros no Varjão!

Texto de Cida Maria Bomtempo

Serviço: aos domingos, a cada quinze dias, na pracinha principal do Varjão, os livros do acervo do Biblirodas são expostos para empréstimos. A responsável por essa ação é a Cida Maria Bontempo.

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